Meu nome é André Luis de Carvalho Ramos, sou Administrador de Empresas, casado, e pai de 03 filhos.

Tive meu AVC em DEZ/07, aos 46 anos de idade. Naquela oportunidade atuava como o responsável por Recursos Humanos de toda América do Sul, em uma importante empresa multinacional americana, e residia com a família na Argentina, porém de malas prontas para voltar para o Brasil, onde estava prevista uma promoção em pouco tempo.
Sempre gostei muito de minha profissão e nesse momento, até sem me dar conta, eu trabalhava de 14 a 18 horas por dia. É importante ressaltar que fazia isso por que gostava e não percebia o meu nível de stress. Concluí isso depois, por não considerar normal meu ritmo de trabalho.
Recebia elogios constantes de que era o executivo que mais entregava. A empresa não fazia ideia da minha jornada de trabalho.
Bom acrescente se a isso um sobrepeso de 25 kg. Apesar de não fumar e beber, vivia em total sedentarismo.
Atuava no Brasil, porém toda sexta feira voava para Argentina. Estávamos aguardando o término do ano escolar para retornar a Curitiba/PR.

Morava só no Brasil.

Em uma sexta feira, como outra qualquer, retornei a Buenos Aires. Minha esposa me buscou no aeroporto e fomos jantar fora.  Ao voltar para casa, enquanto tomávamos um licor, senti uma grande moleza. A sensação era de queda de pressão (coisa que nunca tive, pois normalmente era elevada). A primeira coisa que me ocorreu foi – “é cansaço, vou deitar um pouco que passa”. Tive uma intuição forte que sugeriu que era grave e era melhor ir para o hospital. Foi o que sugeri para minha mulher.
Nesse momento começou a formigar meu braço esquerdo (tive o AVC do lado direito do cérebro). Rapidamente pensei que era ataque cardíaco e pedi a minha esposa que fosse mais rápido, porém sem assusta-la. Não sentia nenhuma dor.
Ainda durante o trajeto começou a formigar fortemente a perna esquerda. Agora sim incomodou. Parecia que estava levando um choque naquela parte do corpo.
Cheguei ao hospital sem o domínio de meu corpo e com uma grande confusão mental, pois não entendia o que estava acontecendo comigo. Lembro-me que vários enfermeiros vieram me retirar do carro. Soube depois que naquele momento minha pressão arterial estava em 24 X 16.  E dá-lhe medicamento para controlar a P.A.
Passei por 03 hospitais e clinicas, pois, minha esposa não estava satisfeita com a precariedade e/ou falta de especialização e até higiene na UTI de alguns hospitais e com isso a empresa interviu e me encaminharam ao CIAREC – em Belgrano, Buenos Aires.
Recomendo que vejam no site. Trabalhava de 3 a 4 horas por dia entre fisioterapia, terapia ocupacional e até psicologia especializada em casos neurológicos. Foi muito importante esse acompanhamento que tive. Fiquei internado 04 meses lá, sendo que com o tempo comecei a passar os fins de semana em casa.
Também tive sorte de não ter sido necessário realizar a cirurgia na cabeça para retirar o excesso de sangue (meu organismo reagiu, drenando a região – realizava exames diários para avaliar a necessidade da cirurgia).

Cheguei em cadeira de rodas e saí de lá caminhando com bengala.

Porém antes do início do trabalho de recuperação dei muito trabalho para a família, pois passei alguns dias em casa antes de iniciar a reabilitação. Como era muito acelerado, sempre queria fazer alguma coisa, esquecendo de minhas reais condições. Por diversas vezes saia da cama com intenção de fazer algo (tenho funcionalidade somente do lado direito do meu corpo) e no segundo passo ia ao chão com todos correndo para me socorrer.
Nessa fase, há uma grande confusão mental. Os pensamentos ficam desorganizados e não se consegue pensar de forma lógica.
Demorei alguns meses para me reorganizar mentalmente.
Recebi autorização para voar em um avião 04 meses após o episódio, podendo voar em uma cabine pressurizada. Voltei ao Brasil, porém com grande dificuldade em encontrar profissionais de fisioterapia do mesmo nível que tinha na Argentina.
Acabei encontrando profissionais, mas somente após alguma procura. De uma forma geral e não menosprezando os mesmos, há um certo receio em lidar com pacientes neurológicos e seus limites. Onde tive maior dificuldade foi com os educadores físicos.
Não quis me aposentar e ao querer retornar ao trabalho, após quase 01 ano, havia uma pessoa ocupando minha posição. Tive que insistir para o INSS me dar alta, pois havia ficado com hemiparesia.  E no final da história acabei sendo desligado.
Como insisti em querer trabalhar, recebi um convite e fui trabalhar em Caxias do Sul. Lá encontrei profissionais dedicados e um excelente neuro (Marcelo Matanna), que me esclareceu muitas coisas sobre minha enfermidade (inclusive informando que o que eu não conseguisse recuperar em 03 anos, provavelmente não conseguiria mais).

Após 2 anos retornei a Curitiba.

Com o desemprego batendo à porta, pedi revisão da minha situação no INSS e atualmente estou aposentado.
Montei uma consultoria (www.abramos.com.br) e sigo trabalhando (pouco em função da crise).
Tenho total autonomia, realizando toda minha higiene pessoal, apesar de ter disfunção em metade do corpo. Reaprendi e adaptei diversas funções a meu lado funcional.
Atualmente dirijo carros automáticos, sem necessidade de adaptação (tive grande dificuldade em obter minha CNH e provar ao Detran das minhas capacidades). Aprendi a me alimentar em grande parte sem auxílio, somente com a utilização de uma mão (sem chamar a atenção e agindo civilizadamente), me visto sozinho, faço academia 02 a 3 vezes por semana com personal trainer (com especialização em neuro e com experiência anterior com seu pai, que também teve o mesmo problema de saúde). Inclusive quando comecei falei que não conseguia fazer esteira. Começamos a 1km/h, hoje já consigo andar a 5km/h. meu objetivo é o de conseguir correr. Bicicleta também. No início tinha que amarrar meus pés para que não caíssem dos pedais. Hoje já consigo ter coordenação para executar sem amarra-los. É importante ressaltar que ele não acreditou nos limites que estabeleci (crenças limitantes) e me exigiu mais.

Para que alguns entendam o quão desafiador é essa questão, é que como não tenho sensibilidade nos braço e perna esquerdos consigo fazer meus movimentos através de um comando mental. É complicado comandar uma parte do corpo que não se sente. Faço tudo isso controlando mentalmente os movimentos (principalmente o andar e não deixar o joelho dobrar para frente). Pensem de como seria andar sem sentir uma das pernas torcendo para ela estar acompanhando. Foram alguns tombos interessantes no começo.
Também tive a sorte de não perder a função sexual. Continuei a ter ereções e sensibilidade, mas tive que aprender algumas coisas, principalmente novas posições.
Por tudo isso que passei e aprendi, acredito que possa compartilhar e incentivar pacientes e familiares de existe a possibilidade de se melhorar. Existe vida após o AVC!!
Não deixei que a doença alterasse meu senso de humor. Tive que aprender a rir de mim mesmo, não ter auto piedade, não deixar a depressão se aproximar e persistir sempre.

André Luis de Carvalho Ramos
Curitiba/PR
Contato: andre.l.c.ramos@hotmail.com