Márcia Heloisa Branco da Fonseca Cerri

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Márcia Heloisa Branco da Fonseca Cerri

Márcia CerriNo dia 05 de janeiro de 2008, eu com 35 anos assistia televisão e tomava sorvete   em um sábado comum quando comecei a babar. Com a voz alterada, pedi ao meu marido que telefonasse para minha irmã, que é medica, mas ele já muito preocupado com os sintomas pediu para minhas filhas se arrumarem rápido para irmos para o Hospital.

Já ao me trocar percebi que o braço esquerdo não respondia e precisei de ajuda para chegar até o carro. Tudo isso aconteceu por volta das 22 horas e para minha sorte em vinte minutos eu estava no pronto Socorro do Hospital de Joinville, praticamente inconsciente, onde através de uma tomografia os médicos identificaram um AVC Hemorrágico, que precisou de uma intervenção cirúrgica de emergência. Na madrugada do dia 06, depois da cirurgia fui levada para UTI onde fiquei em coma induzido por 15 dias.

Inconsciente não sabia que do lado de fora, familiares, amigos e equipe do hospital lutavam para eu retornar, com muito trabalho, orações e amor. Todos eles, em especial os familiares, contam do sofrimento, do medo da perda, da solidão. Neste período perdi o aniversario da minha filha mais nova e perdi minha festa de formatura, mas o maior presente foi retomar a consciência em 19 de janeiro. Ainda confusa, comecei entender o que havia acontecido, um AVC decorrente de uma mal formação arteriovenosa (MAV) que estava escondida em meu cérebro e que infelizmente sangrou, causando este derrame.

Começava a minha luta… A primeira batalha era voltar a falar e comer, com ajuda de uma fonoaudióloga ainda no hospital reaprendi a mastigar, a engolir e falar. Consegui assim me livrar da alimentação por sonda que usei por mais de 20 dias. Ainda totalmente dependente, como um bebê, precisava de alguém para tomar banho, me trocar, ir ao banheiro, comer, ou seja, precisava de ajuda para tudo. Fora da cama, só usava a cadeira de rodas, pois o lado esquerdo do meu corpo estava totalmente imóvel. Ainda no quarto do hospital iniciei trabalhos com fisioterapia, no entanto quando deixei o hospital no dia 29 de janeiro de 2008, estava ainda na cadeira de rodas. Mal sabia eu que o meu martírio estava tendo início naquele momento, pois até então não havia sofrido tanto, devido ao efeito dos remédios que me deixavam confusa e as limitações físicas não eram postas a prova dentro do hospital.

O próximo passo então mais necessário era deixar a cadeira de rodas. Isso era possível e a expectativa entre os familiares e amigos era bastante grande, me fazendo lutar para que esta e outras melhorias ocorressem. Com ajuda dos fisioterapeutas e dos familiares que em nenhum momento me abandonaram, consegui um mês depois andar sem a cadeira de rodas, apoiada com auxilio de outra pessoa.  Com isso veio um pouco mais de independência e isso me motivava a continuar os exercícios. Com uma festa, celebramos a minha formatura atrasada e também este momento de vitoria. No entanto, o medo de um novo AVC ainda pairava sobre nós e tive que me submeter a uma radiocirurgia em Curitiba. Este tratamento só surtiria efeito algum tempo depois, quando a mal formação seria ocluida, acabando com riscos.

Com acompanhamento medico, alem de uma fisioterapeuta e de uma terapeuta ocupacional, continuo buscando aperfeiçoar meus movimentos de perna e braço, este ultimo ainda com pouca funcionabilidade e com bastante espasticidade (contratura muscular).
Quase um ano depois, iniciei meu trabalho como Psicóloga num consultório. No período de recuperação estudei um pouco sobre deficiência adquirida, li alguns livros de pessoas que passaram por um AVC e quero me aprofundar nesta área para ajudar outras pessoas que passam por sofrimentos parecidos com este.

Me deparo todos os dias com as limitações que antes eu não tinha, mas tento vencê-las e a melhor maneira que vejo é encará-las de frente, sofro com isso sim, mas não desisto dos meus sonhos.

Alem do trabalho, meu próximo passo será voltar a dirigir, com adaptações no carro isso também é possível !!!

Nunca deixei de reagir, mas as vezes me sinto desanimada. É muito ruim ter uma vida normal e perde-la de repente. Perder a liberdade de
fazer o que quer, vestir o que quer, desejos simples… como querer usar um sapato de salto e não poder, não poder correr, saltar, andar de bicicleta, nadar…

As vezes me canso, (mental e fisicamente), mas com isso também aprendi que alguns sonhos podem ser mudados, outros adiados e outros ficaram para trás. As vezes me pego imaginando que desço rapidamente do carro, ou que levanto rápido de uma cadeira para pegar alguma coisa, mas sei que isso ainda não é possível e talvez nunca mais seja. Prefiro pensar que se Deus me fez passar por tudo isso, me dando no inicio uma vida normal, mas depois colocando limitações, deve ter tido motivos para isso. Me deixou com limitações físicas mas preservou minha mente saudável. Posso falar com as pessoas que amo, apreciar uma boa comida, ver coisas lindas, ler um livro, escrever este texto, apreciar a vida, fazer o meu trabalho e ajudar outras pessoas, que passou a ser meu objetivo neste momento. Isso sim me motiva.

Minha formação em Psicologia me ajudou bastante. Primeiramente, se fosse uma profissional que dependesse dos braços para trabalhar (uma dentista, por exemplo), seria o fim. A Psicologia, além de me ajudar entender que muito dependia de mim, é uma profissão que posso exercer normalmente com minhas deficiências físicas.

O carinho dos familiares e amigos além do apoio dos especialistas (médicos, fisioterapeutas, fonoaudiólogo, psicólogos) é fundamental. No entanto se eu não pensar em mim, dizer o que quero, lutar pelos meus direitos a vida dos outros continua independente da minha e por isso tenho que me manter forte.
O amor que sinto pelo meu marido e minhas filhas faz com que eu queira ser melhor a cada dia para poder compartilhar a vida com eles.

Quando sai do hospital, aceitar ou não, não era uma opção, era um fato.

Na minha cabeça eu podia ficar só  lamentando o que aconteceu, sem ao menos sair da cadeira de rodas ou ir a luta para ter minha vida como era de volta. Sei que nunca mais serei como antes, mas trabalho todo dia para melhorar a minha qualidade de vida e deixá-la o mais próxima possível do normal.

Hoje, aos 37 anos, tenho a consciência que sou deficiente física e que esta nova situação me faz lutar por novos direitos. Tenho vontade de trabalhar cada vez mais com pessoas que adquiriram uma deficiência, pois sei que posso contribuir através da minha formação acadêmica e de uma experiência de vida, que é lógico, preferia não ter tido, mas já que me foi imposta, quero tirar o melhor proveito dela.

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